Sobre a Obra

Le Moulin de la Galette

  • Artista: Gogh, Vincent van
    Nacionalidade flamenca
    (Holanda, Groot-Zunder, 1853 – Francia, Auvers-sur-Oise, 1890)
  • Data: ca. 1886-1887
  • Origem: Galerie Thannhauser (Berlín) a través de la Galería Müller (Buenos Aires)
  • Gênero: paisagem
  • Suporte: Sobre papel entelado
  • Dimensões: 61 x 50 cm.
  • Localização: Salão 14 - Impresionismo y Post Impresionismo
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Le Moulin de la Galette Ampliar
Inventário 2720

Comentário sobre Le Moulin de la Galette

​​Foram condições muito particulares, pode-se dizer de transição, as que levaram a Vincent van Gogh a pintar este Moulin de la Galette, obra que inscreve-se em uma importante serie de vistas de Paris. O artista holandês chegou a capital francesa em março de 1886. Lá se encontrou sem sequer lhe haver avisado com anterioridade– seu irmão Theo, que já estava sete anos na cidade e dirigia por sua conta de Boussod et Valadon uma pequena galeria no bulevar Montmartre.
Quando Van Gogh pinta seu Moulin, está deslumbrado pelo contexto artístico circundante, de uma infrequente densidade: o manifesto simbolista de Moréas, a última exposição impressionista (onde se presentou La Grande Jatte de Seurat), a publicação das Illuminations de Rimbaud y de L’oeuvre de Zola tumultuam o cenário cultural. Descobre também os encantos da cidade, as galerias e as discussões animadas nos cafés. Também as obras do Louvre, museu que visita com frequência. Para coroar essas experiências, soma ao frenesi um toque académico incorporando-se, para afirmar suas qualidades técnicas, como aluno do atelier do muito clássico Cormon. Lá alterna com Toulouse-Lautrec e Anquetin.
É sabido que Van Gogh levou sua carreira para frente com uma determinação tão humilde como profunda, e sem duvida esses meses em Paris mobilizaram nele um poderoso desejo de criar. A Butte Montmartre formava parte de sua vida diária, já que se hospedava na casa de Theo, que vivia nesse bairro. Os laços que uniam aos dois irmãos eram certamente muito fortes, mas no outono de 1886 a promiscuidade do nº 54 da rue Lepic – desde onde o panorama da cidade era magnífico – começou a pôr-se densa. Esso levou a Vincent a substituir a natureza morta, que podia realizar no apartamento, pela paisagem. Impulso que, em um primeiro momento, o levou a representar os arredores imediatos, e por fim Montmartre (1).
Por “Moulin de la Galette” se entende o café-concert que se estendia em realidade entre dois moinhos de Montmartre: o Blute-Fin e o Radet. Na célebre composição de Renoir titulada Le bal du Moulin de la Galette (1876, Musée d’Orsay, Paris), assistimos as festas e os bailes que alegravam a vida do lugar. Mas não foi o moinho de vento como tal o que havia interessado então ao pintor impressionista. Van Gogh, em cambio, adotou uma atitude totalmente diferente. Concentrou-se neste caso em um dos dois edifícios afetados pelo café-concert: o Blute-Fin, antiga construção em madeira erigida em 1622 e que servia sobre tudo para moer trigo.
O ponto de vista adotado para o moinho – a parte posterior do edifício– não tinha nada de original e o escoliam pela mesma época vários pintores (que saturavam o bairro de Montmartre). Sabe-se no em tanto que Van Gogh ensaiou várias outras vistas para circunscrevê-lo melhor. É assustadora a claridade e a frescura, do quadro, dominado por pinceladas vivas de azul que vão se convertendo em branco, em tonalidades muito homogéneas. A perspectiva que parte de baixo adotada pelo pintor, gera uma linha do horizonte baixa que estala em um grande céu iluminado. Van Gogh, que em abril de 1885 havia trabalhado com fervor em seus escuros Mangeurs de pommes de terre, parece de repente exultar ao contato com o ambiente parisiense. É verdade que já havia começado a aclarar sua paleta em Anvers sob influencia dos quadros de Rubens, mas Montmartre lhe inspira sobre tudo, no tratamento da atmosfera, uma maneira muito mais leve. Compreende-se, pois, o que escreveu a um de seus amigos artistas (H. M. Levens) em 1887: “Não há outra coisa que Paris, e por mais difícil que a vida possa ser aqui, ainda que seja pior e dura, o ar francês, limpa o cérebro e faz bem, muito bem” (2). A bandeira tricolor balançando ao vento, representada em umas poucas pinceladas nervosas, traduz perfeitamente, por outro lado, essa plenitude triunfal nas terras da França.
Observemos também, que Van Gogh escolheu uma vista que não permite adivinhar em nada as diversões do Moulin de la Galette. Há nele um interesse pitoresco pelo lugar, mas também uma vontade de mostrar um espaço de trabalho no limite entre a cidade e o campo, no que era ainda, nessa época, um bairro periférico de Paris, povoado de gente modesta. O casal de personagens abaixo a direita, além de indicar a escala, está vestida de maneira humilde e quase campesina. Van Gogh desliza em sua obra uma dimensão social que o comove particularmente.
Poderíamos afirmar, então, que este óleo é uma excelente testemunha da euforia do pintor holandês que recorre Paris e ainda assim um exemplo típico de tableau-laboratoire. Van Gogh experimenta nele serenamente seus conceitos plásticos, que encontrariam sua realização absoluta uns meses mais tarde, no sul da França, em Provenza, região que o “limpa[ria] o cérebro” (como escreve ele) com a intensidade combinada do gênio e a loucura.Thomas Schlesser

Nota de rodapé

1— Cf. AA.VV., Van Gogh à Paris. Paris, Réunion des musées nationaux, 1988, p. 54-61 y 78-85. Este rico catálogo, ainda que não reproduza a obra do MNBA, menciona muitas das vistas de moinhos parisienses realizadas por Van Gogh em 1886-1887.
2— Georges Charensol (ed.), Vincent van Gogh. Correspondance générale. Paris, Gallimard, 1960, vol. 3, p. 4.

Bibliografia

1928. DE LA FAILLE, J. B., L’Oeuvre de Vincent van Gogh. Catalogue raisonné. Paris/ Bruxelles, G. van Oest, nº 348, lám. 94.
1934. DA ROCHA, Augusto, “Algo mais sobre Van Gogh e Gauguin”, Boletim do Museu Nacional de Belas Artes, Buenos Aires, vol. 1, a. 1, Julho, reprod. byn tapa.
1935. Beaux-Arts, Paris, nº 116, 22 de março, reprod.
1936. Plástica, Buenos Aires, abril, reprod. byn p. 10.
1939. DE LA FAILLE, J. B., Vincent van Gogh. Paris, Hypérion, nº 266, reprod. byn p. 207.
1961. REWALD, John, Le Post- Impressionnisme, de Van Gogh à Gauguin. Paris, Albin Michel.
1969. LASSAIGNE, Jacques, Toulouse- Lautrec e la Parigi dei cabarets. Milano, Fratelli Fabbri, reprod.
1970. DE LA FAILLE, J. B., L’Oeuvre de Vincent van Gogh. Catalogue raisonné. Amsterdam/Paris, Meulenhoff International/Vilo, nº 348.
1996. HULSKER, Jan, The complete Van Gogh paintings, drawings, sketches. Revised and enlarged edition of the catalogue raisonné of the works of Vincent van Gogh. Amsterdam, Meulenhoff, nº 1182, reprod.