Sobre a Obra

A Conquista do México. Tábua V (La Conquista de México. Tabla V)

  • Artista: Gonzales, Miguel
    (Mexico S.XVII )
  • Data: ca. 1696/1715
  • Origem: Museo Histórico Nacional (despachada pelo Museo de Historia Natural de Buenos Aires - Doação Mackinlay, Guillermo)
  • Gênero: enconchado, histórico
  • Suporte: Em madeira (madeira de Araucária e linho têxtil)
  • Dimensões: 100 x 52 cm.
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A Conquista do México. Tábua V (La Conquista de México. Tabla V) Ampliar
Inventário 6318
Obra não exposta

Comentário sobre A Conquista do México. Tábua V (La Conquista de México. Tabla V)

Descrição Madeira V: Na entrada de Tlascala lhe dão os índios três batalhas rigorosas ao capitão geral Cortés e sai vencedor - Vem o capitão Xicotenga o Mozo fazendo paz e obediencia a Sua Majestade por mando de seu padre Xicotenga o Velho.

O conjunto destas pinturas constitui uma narração sobre a conquista de México, desde o desembarco de Cortés em San Juan de Ulúa e o naufrágio dos navios até a queda de Tenochtitlan e a rendição de Cuauhtémoc. Não se trata da ilustração de fatos isolados, se não de um relato estruturado, no que se encadeiam vários episódios, com um começo e um final claros. Em cada pintura representam-se duas ou três cenas, que em general estão ordenadas cronologicamente desde o último até o primeiro plano e se enunciam em cartelas. A seleção dos temas marca um relato centrado nas figuras de Cortés e de Moctezuma: não se indicam ações espanholas que não hajam estado diretamente sob o mando de Cortés e Cuauhtémoc aparece somente no ato de rendição final. Em numerosas cenas se representa a dona Marina, a Malinche, que servia de intérprete a Cortés, mas não se menciona seu nome.
A impronta narrativa, a técnica insólita, a influencia oriental, o longo anonimato do autor apesar de que firmara sua obra, hão sido outros tantos motivos de interesse.
As pinturas com incrustações de nácar são uma produção específica da Nova Espanha de fins do século XVII e princípios do XVIII. Algumas se organizam em séries de assunto histórico ou religioso. Há também pinturas isoladas, neste caso, sempre religiosas. As das serie histórica estão orladas por sanefa decorativas trabalhadas também com incrustações de nácar. Algumas das outras pinturas têm molduras realizadas com a mesma técnica.
Sobre o suporte - uma madeira que pode estar recoberta por uma tela–colocava-se a capa de preparação, sobre a qual se realizava um primeiro desenho, que permitia definir as zonas em que se colocaria o nácar: a vestimenta, alguns objetos, o reborde das cartelas e as flores e pássaros que adornam as sanefas, em troços irregulares de aproximadamente um centímetro e meio de lado. Uma vez aderidos os troços de concha se repassava o desenho e se aplicava uma capa fina de pintura. Deste modo, as cores se irisam com os reflexos do nácar.
Ainda que o uso da concha nácar tenha uma longa tradição em Mesoamericana desde a época pré-colombiana, estas pinturas mostram influencia oriental.
O uso dos biombos e os móveis laqueados e com incrustações havia sido difundido pelo comercio com as Filipinas. A possessão dessa ilha permitiu a Espanha desenvolver o comércio com o Oriente a través do Pacífico. Desde o século XVI até o XIX, todos os anos, a Nao de China, ou Galeón de Manila, unia este porto com Acapulco, onde descarregava produtos provindos da China, Japão, Índia. Parte desse tráfico seguia para a Espanha, mas a maior parte era absorbida pelos vice-reinados do Peru e da Nova Espanha. Em particular as molduras e as sanefas com incrustações de nácar têm influencia da pintura namban japonesa.
Todas as series conhecidas de enconchados constam de seis, doze ou vinte e quatro madeiras.
As de assunto histórico são cinco sobre a conquista do México, uma sobre as guerras de Alejandro Farnesio e um biombo do sítio de Viena pelos turcos. A serie do MNBA relaciona sobre tudo com outra de 24 madeiras que foi propriedade dos duques de Moctezuma. No Museu da América de Madrid se conserva uma serie de vinte e quatro pinturas (assinada na madeira IX por Miguel Gonzales e na XXIV por Juan Gonzales e datada em 1698) e outra de seis de maior tamanho. E a quinta, também de seis madeiras, se repete entre o Museu Mayer e o Museu Nacional de Historia de México.
Durante muito tempo não se soube quem eram Miguel e Juan Gonzales, e o fato de que a maior parte das pinturas enconchadas se conservaram em Espanha fez que se discutisse sobre sua procedência, até que o encontro de provas documentais nos arquivos mexicanos por parte de Guillermo Tovar de Teresa deixara fora de questão sua condição novo hispana.
A serie do MNBA parece seguir a crónica de Bernal Díaz del Castillo, integrante do seguidores de Cortés que escreveu uma Historia verdadera de la conquista de la Nueva España. É o texto com o que presenta maiores analogias, e inclusive algumas representações iconográficas, como a dos ídolos no alto da pirâmide de Tlatelolco, parecem uma transcrição pictórica das descrições que faz esse autor. As madeiras alternam representações confiáveis do contexto histórico com elementos totalmente fantásticos e também com anacronismos gerados no entorno em que se pintaram a vida colonial, mais de um século e meio posterior a conquista.
No século XIX Alejandro Mackinlay trouxe da Inglaterra estas vinte e duas pinturas, que ingressaram ao Museu Público antes de 1864. Na serie faltam duas madeiras, que sabemos que foram vendidas em Londres, em 1934, a José R. Gómez Acebo, naquele então embaixador da Espanha na Finlândia. Desde que se pintaram os enconchados tiveram suas próprias viagens, por épocas passaram despercebidas e por outras atraíram a atenção de um Vice-rei do México como o Conde de Moctezuma e Tula, de viageiros curiosos como Antonio Ponz no século XVIII ou Martin de Moussy no XIX, de intelectuais como Alfonso Reyes e do público que hoje disfruta a muitos deles nos museus.Marta Dujovne

Bibliografia

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