Sobre a Obra

O drama (El drama)

  • Artista: Forner, Raquel
    Nacionalidade Argentina
    (Argentina, Buenos Aires, 1902 – Argentina, Buenos Aires, 1988)
  • Data: 1942
  • Origem: Salón Nacional de Artes Plásticas
  • Gênero: alegoría, grupo de París
  • Suporte: Sobre tela
  • Dimensões: 126 x 174 cm. - Marco: 158,5 x 208.5 cm.*
  • Localização: Salão 30 - Arte internacional y argentino 1920 - 1945 - Los lenguajes modernos
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O drama (El drama) Ampliar
Inventário 6401

Comentário sobre O drama (El drama)

​“Necessito que minha pintura seja um eco dramático do momento que vivo”, declarava Raquel Forner em 1938 depois de haver apresentado Mujeres del mundo, uma das obras que integra a longa saga de peças que realiza a partir de 1937 ligadas ao drama da guerra (primeiro a espanhola, logo a mundial). Pões seu trabalho a serviço da causa da República, da liberdade, do respeito pelos direitos humanos e foi então quando desdobrou sua produção, desenvolvendo uma figuração contundente que procurava representar através de sua síntese simbólico-plástica os fatos e deste modo denunciar os crimes do homem contra o homem.
Neste sentido, Forner se apresenta como uma artista argentina chave dentro deste processo de reposicionamento frente à realidade mundial contemporânea produzindo neste contexto sua Serie de España (1937-1939) e a do Drama (1939-1946). Suas obras resolvem de una maneira particular as tensões entre arte e vida, arte e política, e se instalam com entidade própria com novas respostas através de um novo olhar; sua condição de mulher não constitui um dato menor, já que as mesmas conduzam às revelações diversas sobre a crise do mundo contemporâneo.
Forner havia começado sua carreira como artista plástica no clima de ebulição y reconstrução da década dos vinte, nos primeiros anos do período de entre guerras. Então a novidade ganhava terreno em diferentes espaços dentro do campo cultural. Também, operou ativamente sobre o âmbito das artes plásticas em Buenos Aires que transitava, em caminho aos anos vinte, por um processo de consolidação crescente que ao mesmo tempo começava a experimentar as tensões que supões o impacto da modernidade e a emergência da “arte nova”. Desde as páginas dos jornais, as palavras “arte moderna”, “vanguarda”, “nova sensibilidade”, “jovem geração” se fizeram cada vez mais frequentes. Os ecos das exposições europeias chagavam através de correspondentes especializados, que trasladaram os debates artísticos dos centros europeus à prensa local. A viagem a Europa constituiu dentro deste processo uma instancia necessária para os jovens artistas. Forner não foi uma exceção: Espanha, Itália e o Marrocos espanhol foram seus recorridos, França, concretamente Paris, seu lugar de assentamento (1929-1931).
Já em 1928 a prensa portenha, partindo de sua apresentação no Salão Nacional de Belas Artes sinalou: “Forner é uma artista atenta ao ritmo da época, se define com perfis bem definidos no grupo de vanguarda […] expressa sua realidade que não supõem reinterpretação literária do mundo de referencia, se não apoio consciente nas coisas sensíveis” (1).
A seu regresso em 1931, encontrou em Buenos Aires um ambiente de afirmação do espaço para as artes e dentro dele um lugar para a “arte nova” que era necessária seguir construindo. No transcurso da década dos anos vinte e avançando sobre a dos anos trinta, foram somando-se as exposições de artistas argentinos e estrangeiros representativas das novas tendências. Buenos Aires se havia convertido, em poucos anos, num frutífero campo de batalha entre o que se reconhecia como a estética consagrada – a de um naturalismo décimo nono herdeiro do impressionismo e da pintura regional espanhola–e as novas propostas plásticas caracterizadas – além de suas variações– por outra compreensão da forma, por uma figuração na que se revisam, partindo de um olhar moderno, os ensinamentos clássicas e as propostas cezannianas junto às experiências da primeira vanguarda.
Por outro lado sobre os anos trinta, a realidade nacional e internacional que inundava o panorama de artistas e intelectuais, invadiu também o horizonte mental de Raquel Forner: a guerra civil e a Segunda Guerra Mundial a obrigam a observar a paisagem caótica do mundo e a operar um giro para o compromisso com a atualidade. Identificou-se com as lutas que encarnou a Frente Popular –a internacional antifascista– e deu um novo rumo a sua obra construindo uma iconografia poderosamente expressiva centrada na imagem da mulher como protagonista. O sentido dramático tinge sua obra nestes anos. Em 1937 começa sua Serie de España, e em 1939, Drama, que teve continuidade até 1946, ano em que inicia a serie Las rocas.
A Serie de España e El drama estão atravessadas pelo patético instalado numa paisagem trágica e violenta que desgarra a os personagens. Nas obras de Forner das décadas dos anos trinta e quarenta, a cor cede lugar aos contrastes de valores e a intensidade dramática reside na produção de paisagens e figuras desgarradoras. Confusas paisagens sombreadas com a densidade atmosférica posterior a uma explosão. A terra, as árvores, os vestígios de arquiteturas e de seres humanos constroem estas visualizações do horror: cenários que constituem uma síntese densa entre as paisagens exteriores da devastação e as paisagens interiores da desolação, a desesperança e o desconcerto do homem ou mais precisamente da mulher, partindo do sublinhado que faz a artista, contra a um mundo alienado.
A obra de 1942, El drama, se apresenta como uma síntese de varias outras peças que integram a saga da dor humana contemporânea. Uma série de desenhos preliminares, simples e monumentais dá passo a este trabalho complexo superpovoado de personagens e elementos que, em conjunto, buscam um sentido narrativo que não permita dúvidas sobre a posição que se sustem frente ao drama da guerra. Varias mulheres protagonizam o primeiro plano. A própria imagem aparece quebrada no retrato que está abandonado no solo com outros elementos como o globo terráqueo, um conjunto de papéis e uma mão com a chaga de Cristo. Para o interior do plano, o panorama é desolador: corpos consumidos, a humanidade encarnada na morte, árvores queimadas, terras ermas e a atmosfera que se respira depois de um bombardeio rodeiam a cena. Toda uma declaração de princípios apresentada com a vocação de um “nunca mais”.Diana B. Wechsler

Nota de rodapé

1— “O XVIII Salão Nacional de Belas Artes”, La Vanguardia, Buenos Aires, 30 de setembro de 1928.

Bibliografia

1942. ROMERO BREST, Jorge, “O XXXII Salão Nacional de Belas Artes”, Saber Vivir, Buenos Aires, a. 3, nº 27, outubro, p. 15-16.
1946. AMORIN, Ricardo, “Raquel Forner”, Orientación, Buenos Aires, 9 de outubro [s.p.].
1968. SQUIRRU, Rafael, “Raquel Forner”, Américas, Buenos Aires, vol. 20, nº 9, setembro, p. 6-12, reprod. byn p. 8.