Sobre a Obra

Composição (Composición)

  • Artista: Maldonado, Tomás
    Nacionalidade Argentina
    (Argentina, Buenos Aires, 1922 )
  • Data: 1950
  • Origem: Francisco Bullrich, 1963
  • Gênero: concreto
  • Suporte: Sobre tela
  • Dimensões: 100 x 73 cm.
  • Localização: Salão 35 - Arte argentino 1945 - 1970: concretos y abstractos
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Composição (Composición) Ampliar
Inventário 7165

Comentário sobre Composição (Composición)

Desde a coberta de carácter expressionista da revista Arturo a pintura Composición conforma um arco que descreve as diferentes procuras realizadas por Tomás Maldonado em sua reflexão sobre à auto-referencialidade da pintura. Composición é uma obra que se enquadra nos lineamentos do concretismo internacional. Esta superfície branca na que se organizam recorridos lineares retos, diversos em modulação e cor, indaga sobre a objetivação do discurso artístico em quanto à área de investigação criativa.
As preguntas pela percepção espacial e a auto-referencialidade da pintura em tanto superfície bidimensional haviam sido centrais na investigação plástica desenvolvida pelos grupos inventores e fundamentalmente pela Associação Arte Concreta-Invenção (AACI). Tomás Maldonado foi o artista teórico deste grupo; se bem tanto ele como seu irmão, Edgar Bayley, tiveram –neste momento– maior capacidade de conceptualização teórica, os debates e as investigações plásticas foram produto da inter-relação grupal.
Em 1947, a resolução que aportava a moldura recortada e as retas coplanares - em tanto na concretização do espaço e as formas– era sometida a prova por vários membros da AACI (1).
No primeiro semestre de 1948 Maldonado realizou uma viagem a Europa que terminou sendo muito significativa já que involucrou a inter-relação direta com a tradição da arte moderna que, até esse momento, se havia recuperado e discutido através de publicações, algumas exposições e relatos de exiliados em Buenos Aires. Além de visitar coleções públicas e privadas travou contato com os principais referentes da tradição construtiva como Max Bill e Georges Vantongerloo.
A volta ao formato ortogonal implicava um retorno ao estudo das diversas propostas abstratas das últimas décadas. Em um texto que escrevia desde Zürich, Maldonado analisava os intentos suprematistas e os projetos neoplasticistas de exaltação do suporte por meio de estruturas lineares:
“Havia que trazer o fundo ao mesmo nível óptico da figura, mas não por meio de uma valorização lineal (neoplasticismo) se não tensional nas figuras. Praticamente se tratava de uma síntese dos dois aspectos mais positivos do neoplasticismo e do suprematismo. No entanto, os resultados em geral são censurados. O problema se levanta. É por isso que ultimamente dois grandes artistas concretistas Vantongerloo e Bill hão sugerido que talvez a estrada seja superar as figuras limitadas. Liquidar as figuras, em uma palavra, e fazer (por meio de sutis elementos não figuráveis) vibrar ao máximo o fundo, seria um dos modos. O outro consistiria em diluir o perímetro das figuras. Esfumar seja cromática ou tonalmente o contorno das figuras” (2).
Composición é uma obra que partindo dos postulados neoplasticistas procura exaltar a superfície branca a partir da tensão gerada entre os distintos elementos inscritos em dito suporte. É possível pensar que a diferença de uma grande porcentagem da produção de Piet Mondrian na qual o plano colorido é um elemento central na composição da imagem, na obra de Maldonado é a fragmentação lineal (a organização da superfície a partir de segmentos) a que produz a ativação do suporte (3) Esta resolução está em correlato com o explicado em seu texto citado.
Em Desde un sector (1953, inv. 7004, MNBA) Maldonado voltava a reflexionar sobre a exaltação do fundo a partir da organização dos elementos pictóricos. No primeiro número da revista nueva visión, dirigida por ele, realizava um estudo sobre a questão dos problemas e possibilidades da arte concreta (4). Lá, Maldonado analisava as características da pintura concreta e as distancias que esta poética mantinha com as tendências contemporâneas:
“É falso que a arte concreta seja alheia a todo sentimento pictórico. O que em realidade sucede é que esta se manifesta aqui de um modo diferente. Digamos que, não como sensualismo vulgar da matéria pictórica se não como sensibilidade superior da inteligência pictórica. […] Ocupar o vazio é fácil, tudo consiste em empilhar fatos com minuciosidade burocrática, a dificuldade começa quando queremos organizar esteticamente o vazio com sutis elementos” (5).
Efetivamente, se consideramos Composición y Desde un sector, vemos que unidades geométricas simples organizam a estrutura compositiva do quadro com o objetivo de ativar o suporte. Uma moderada distribuição de elementos em alguns setores procura a exaltação de amplos planos cromáticos uniformes.
Resulta destacável que as investigações realizadas por Maldonado não se circunscreviam exclusivamente a questões pictóricas. Em 1946 nas páginas da revista Arte Concreto-Invención Maldonado, seguindo o modelo do desenvolvimento cultural russo pôs-revolucionário, ressaltava a necessidade de estender a ação estética da totalidade do entorno humano. Se a arte concreta era portadora de um programa de renovação da cultura, da vida cotidiana e da sociedade em seu conjunto, devia expandir suas investigações à arquitetura e o desenho. Assim, em seu artículo “El diseño y la vida social” (1949) –considerado o primeiro texto sobre desenho industrial na América Latina– Maldonado definia conceitos sobre a produção de objetos com um eixo chave para abordar as problemáticas do mundo contemporâneo (6).María Amalia García

Nota de rodapé

1— Ver neste mesmo catálogo a entrada sobre Pintura nº 153 (inv. 9202), de Raúl Lozza.
2— Tomás Maldonado, El arte concreto y el problema de lo ilimitado. Notas para un estudio teórico. Zürich, 1948. Buenos Aires, Ramona, 2003. Edição facsimilar do texto manuscrito. Sublinhado no original.
3— Sobre este assunto ver: García, 2008.
4— María Amalia García, “La ilusión concreta: un recorrido a través de nueva visión. revista de cultura visual, 1951-1957”, Leer las artes. Las artes plásticas en ocho revistas culturales argentinas (1878-1951). Buenos Aires, Instituto de Teoria e Historia da Arte Júlio E. Payró, FFyLUBA, 2002, p. 169-191.
5— Tomás Maldonado, “Atualidade e porvir da arte concreta”, nueva visión, Buenos Aires, nº 1, dezembro de 1951, p. 5-8, 12.
6— Tomás Maldonado, “O desenho e a vida social”, CEA. Boletín del Centro de Estudiantes de Arquitectura, Buenos Aires, nº 2, outubro de 1949, p. 7-8. Ver sobre este assunto: Carlos A. Méndez Mosquera e María Amalia García, “Notas sobre a revista nueva visión e seus recorridos” em: Tomás Maldonado. Un itinerario. Buenos Aires, MNBA/Skira, 2007, p. 178-189; Gui Bonsiepe, Del objeto a la interfase. Mutaciones del diseño. Buenos Aires, Infinito, 1998, p. 94.

Bibliografia

1995. LOPEZ ANAYA, Jorge, “Hace 50 anos fue creada la Asociacion Arte Concreto Invencion”, La Maga, Buenos Aires, 5 de julho, reprod. p. 38.
1998. AMIGO, Roberto; Patricia M. Artundo y Marcelo E. Pacheco, Pintura argentina. Breve panorama del período 1830-1970. Buenos Aires, Banco Velox, reprod. p. 101.
1999. SIRACUSANO, Gabriela, “Las artes plasticas en las decadas del 40 y 50” em: Jose Emilio Burucua (dir.), Nueva historia argentina. Arte, sociedad y política. Buenos Aires, Sudamericana, vol. 2, reprod. p. 25.
2001. FORN, Juan et al., “Abstraccion I”, Pintura argentina. Panorama del período 1810-2000. Buenos Aires, Banco Velox, n. 20, reprod. p. 10.
2007. ESCOT, Laura, Tomás Maldonado. Itinerario de un intelectual técnico. Buenos Aires, Patricia Rizzo, reprod. p. 68. — SAVLOFF, Judith, “Eramos jovenes insoportables”, Perfil, Buenos Aires, 23 de diciembre, reprod. p. 12. — WILSON, Alfonso, Consonancia. La abstracción geométrica en Argentina y Venezuela, años 40 y 50. Caracas, Artesanogroup, reprod. p. 59.
2008. GARCIA, Maria Amalia, Abstracción entre Argentina y Brasil. Inscripción regional e interconexiones del arte concreto (1944-1960). Tese de doutorado, FFyL-UBA, mimeo, fig. 66.
2009. GARCIA, Maria Amalia, “Max Bill on the Map of Argentine-Brazilian Concrete Art” em: Mari Carmen Ramirez (ed.), Building on a Construct: The Adolpho Leirner Collection of Brazilian Constructive Art at the MFAH. Houston, The Museum of Fine Arts/Yale University Press, reprod. p. 45.