Sobre a Obra

Dois dançarinas amarelas e rosas (Deux danseuses jaunes et roses)

  • Artista: Degas, Edgar
    Nacionalidade Francesa
    (Francia, París, 1834 – Francia, París, 1917)
  • Data: 1898
  • Origem: Mercedes Santamarina, 1970
  • Gênero: costumes
  • Suporte: sobre papel
  • Dimensões: 106 x 108 cm.
  • Localização: Salão 19 - Pintura francesa del Siglo XIX - Colección Mercedes Santamarina
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Dois dançarinas amarelas e rosas (Deux danseuses jaunes et roses) Ampliar
Inventário 7737

Comentário sobre Dois dançarinas amarelas e rosas (Deux danseuses jaunes et roses)

​Degas abordou alternativamente a pintura a óleo, o desenho, a gravura e a escultura. Aproximou-se ao pastel ao enfraquecer sua visão. Reparou pouco em paisagens ou vistas ao ar livre, salvo em sua incursão na técnica do monotipo, abordando-o mais desde a abstração que partindo de uma intencionalidade figurativa. Seu interesse residia na captura “do momentâneo”, por isso lhe atraíram as carreiras de cavalos, o espetáculo de ballet, os ensaios das bailarinas ou os momentos inesperados de sua serie de nus femininos relacionados com o banho.
Dentro destas temáticas, as bailarinas ocuparam um papel relevante pela técnica de execução e pela cristalização de um corpo de procuras, sendo o mais original para a época, relacionado com a integração das figuras em um espaço no qual também está previsto o espectador que observa “esse momento” desde una posição quase privilegiada, consubstanciando-se com o que ali sucede.
Apresentou as bailarinas sozinhas ou em grupos, ensaiando ou a ponto de sair à cena, no cenário dançando, saudando ou descansando entre bambolinas. Em todas elas prevaleceu a captura desse momento íntimo, de um gesto particular, desse instante que transmite toda a carga emotiva da situação representada. Visão realista (1) que não esgotou recursos para chegar ao seu objetivo: aproximou os planos, utilizou um enfoque de cima para baixo favorecendo a intensidade descritiva da cena ou descentralizou a composição, como nas estampas japonesas, que o cativaram desde que descobriu a pintura de Hokusai. Focalizou seu olhar em figuras particulares, vistas sempre desde um ângulo obliquo, muito próximas ao espectador, reproduzindo as distorções de espaço ou de enfoque causadas pelos binóculos utilizados pelos que assistem a este espetáculo.
O interesse de Degas pelos espetáculos de ballet começou por volta de 1870. Frequentou regularmente o edifício da Ópera de Paris da Rua Le Peletier (3), espaço físico que serviu de cenário as serie de pinturas sobre esta temática. As primeiras obras lhe valeram para concentrar-se em suas principais inquietudes: A organização de um grupo de figuras no interior, onde o elemento descritivo e o estudo dos efeitos da luz artificial combinados com os de luz natural foram o centro de sua atenção.
Em 1880, se concentrou no manejo do pastel, que lhe permitiu maior fluidez no traço. Conseguiu fundir a cor e o desenho, aplicando o pastel com fortes toques verticais, que fizeram ressaltar a tonalidade através do contraste de cores. Utilizou uma paleta ante-naturalista, azul eléctrico, amarelo cromo, laranjas, vermelhos, deixando de releve a planimétrica da cor.
Os fins desta década as representações das bailarinas parecem centrar-se quase obsessivamente no mundo das bambolinas. Degas teve acesso ao backstage da Ópera através da amizade com músicos, coreógrafos, compositores, e também como abonado entre os anos 1885 e 1892. Isso lhe permitiu registrar os espaços por onde se moviam as bailarinas: as aulas, os camarins, a sala de ensaio e o foyer, lugar de encontro com os abonados durante os intervalos.
Em uma das series de bailarinas que pintou nestes últimos anos (4), período no qual pertence Amarelo e rosa, elas aparecem em pares, repousando extenuadas depois da apresentação, sentadas num banco, uma junto à outra, tratando de aliviar seu cansaço, esfregando-se os tornozelos, despencando a cabeça sobre sua mão, enquanto o outro braço aparece em algumas versões recortado, ou como neste caso acomodando, quase por inercia, ao tutu de sua companheira. Em estas obras finais da década de 1890 as cores são fortes, as linhas grosas, os espaços irreais e estenográficos. Os corpos das bailarinas hão perdido a capacidade de bailar, repousam, saúdam, esperam e, nos raros casos em que elas dançam, o movimento é coletivo, estando ausente o talento individual (5). O que é chamativo nas imagens mais tardias de bailarinas é a transformação da composição e da função da cor. A cor lhe permitiu a Degas realizar variações de uma mesma cena. As composições de suas series nunca constituíam um par idêntico. Suas personagens estavam modificadas em algum aspecto ou algum detalhe se suprimia. Curiosamente, a maior parte destas últimas obras não foi vendida, se não conservadas ou arquivadas pelo próprio pintor em seu atelier. Repetindo esses temas, Degas conseguiu aprofundar suas investigações expressivas, além de mostrar-nos o glamoroso mundo do espetáculo ao revés, representando a suas bailarinas como mulheres trabalhadoras, que lutam duramente para desenvolver suas habilidades, que, às vezes se desanimam, se cansam e ocasionalmente alcançam o estrelato.Claudia Turolla – Melania Núñez Santacruz

Nota de rodapé

1— Ver: Carol Armstrong, Odd Man Out. Readings of the Work and Reputation of Edgar Degas. Chicago/London, The University of Chicago Press, 1991.
2— Jill de Vonyar y Richard Kendall, Degas and the dance, cat. exp. New York, Harry N. Abrams/American Federation of Arts, 2002.
3— Este edifício foi destruído por um incêndio no ano 1873 e foi rapidamente substituído pelo atual edifício da Ópera conhecido como Palácio Garnier em honra o seu desenhador Charles Garnier.
4— Serie cujo ponto de partida, seguindo a Vonyar e Kendall, seria a obra realizada em carvão colorido com pastel, Two Dancers Resting, ca. 1890, Philadelphia Museum of Art. A partir desta se pode reconstruir o manejo da cor que realiza nas demais versões de similar estrutura, como por exemplo, Dancers, ca. 1891, na National Gallery of Canada, Ottawa, e uma versão menor, Two dancers, 1898, The Saint Louis Art Museum, ambas derivadas do mesmo desenho maestro.
5— Virginia Bertone, Degas. Madrid, Electa, 1995.

Bibliografia

1914. Degas. Paris, Vollard Album, nº 1324 a 1332-1367, reprod. nº 1.
1946-1949. LEMOISNE, Paul-André, Degas et son oeuvre. Paris, Paul Brame & C. M. de Hauke/Arts et Métiers Graphiques, vol. 3, nota 1323 y vol. 4, “Index catalographique des peintures et pastels, Argentine, Colección Mercedes Santamarina”, p. 91.