Sobre a Obra

Inestabilidade. Proposição arquitetural (Inestabilidad. Proposición arquitectural)

  • Artista: Le Parc, Julio
    Nacionalidade Argentina
    (Argentina, Mendoza, 1928 )
  • Data: 1963-1964
  • Origem: Doação Torcuato Di Tella (Fundação e Instituto), 1971
  • Gênero: cinético
  • Dimensões: 300 x 249 x 57,5 cm.
  • Localização: Salão 36 - Arte argentino 1945 - 1970: arte óptico y cinético
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Inventário 7846

Comentário sobre Inestabilidade. Proposição arquitetural (Inestabilidad. Proposición arquitectural)

Inestabilidad. Proposición arquitectural é uma obra que responde ao interesse de Julio Le Parc por explorar os fenómenos da percepção visual em general e, em particular, os problemas derivados de sua instabilidade. Em junho de 1960, assinou o registro fundacional do Centre de Recherche d’Art Visuel, através do qual junto com um grupo de jovens se propunha modificar a atitude tradicional do artista e aprofundar suas investigações individuais no intercambio grupal. Entre eles estavam os latino-americanos Hugo Demarco, Horacio García Rossi, Francisco García Miranda, Le Parc e Sergio Moyano, assim como os europeus Francisco Sobrino – espanhol ainda que graduado na Escola de Belas Artes Prilidiano Pueyrredón–, François Molnar, Servanes, François Morellet, Joël Stein e Jean-Pierre Yvaral, quem começaram a realizar experiências cinéticas sob o nome de Groupe de Recherche d’Art Visuel (GRAV) e individualmente (1).
Desde seus primeiros trabalhos parisienses com o GRAV, Le Parc buscou afastar-se da noção de obra estável e definida, trabalhando sobre as mudanças geradas pela incidência da luz, as variações originadas por um clarão inesperado ou por uma tênue vibração provocada por algum elemento suspendido. Começou a investigar os fenómenos de instabilidade e imaterialidade, assim como os efeitos da luz e o movimento, realizando de modo precoce caixas com movimentos manuais que produziam transformações de imagens e cores. Rapidamente indagou as possibilidades da luz indireta e rasante, tanto sobre o plano como sobre telas curvas e acidentadas.
Também interessado em explorar a variedade de situações que se dão em uma mesma experiência visual, começou a realizar obras móveis a partir de uma organização simples e rigorosa de sua estrutura. Nestes casos, a situação visual que muda, não somente provinha de seu movimento continuo se não também das circunstancias de sua apresentação, entre as que jogavam a iluminação, os deslocamentos ou as imagens circundantes. Em consequência, ao incorporar esses elementos exteriores estas obras davam um lugar preponderante ao aleatório.
A participação do espectador manteve um lugar central na poética de Le Parc, tanto por meio do estímulo luminoso, os obstáculos e a surpresa, como através da manipulação de algum elemento. Desde seus trabalhos com o GRAV, priorizou um tipo de proposição plástica encaminhada para uma obra “aberta” na que o espectador poderia transformar-se em um participante ativo. Frank Popper há sublinhado que em alguns casos esta abertura pode chegar ao segundo grado, já que o espectador deve ser sujeito de observação para outros espectadores (2).
Em 1963 o GRAV integrou a Nouvelle Tendance-Recherche Continuelle, agrupação conformada por uma quantidade de artistas entre os que se encontravam Luis Tomasello, Gregorio Vardanega, Hugo Demarco, Enrico Castellani, Hans Haaker, Enzo Mari e as coletivas Equipes 57 de Espanha e os italianos N de Padua e T de Milán. Ao ano seguinte, os integrantes do GRAV exibiram no MNBA a exposição La inestabilidad, na que o público de Buenos Aires conheceu os jogos de luz rasante e movimentos de Le Parc, assim como os discos e releves com movimento, as tramas metálicas ou as caixas para manipular de Sobrino, Stein, Yvaral, Morellet e García Rossi.
Popper há sinalado que Le Parc adquiriu a luz rasante desde 1960, e que em 1962 derivou para o trabalho com cilindros e “contínuos- luz”. Dentro deles, preferiu acentuar a visualização da luz em movimento, experimentando com fontes luminosas situadas atrás de um perfil com pequenos orifícios (3). Entre as primeiras obras que responderam a este sistema se encontraram as criadas para o Laberinto apresentado na Bienal de Paris de 1963 e na inestabilidad, apresentada em Paris, Rio de Janeiro e, em julho de 1964, no MNBA de Buenos Aires.
Em outubro desse último ano Le Parc foi convidado a participar no Premio Internacional do Instituto Torcuato Di Tella, onde apresentou um conjunto de obras entre as que se exibiam três jogos luminosos. Precisamente, uma dessas propostas foi Inestabilidad. Proposición arquitectural (1963-64), que consta de uma serie de oito placas curvas de alumínio alinhadas em treze filas equidistantes e paralelas. Este sistema de placas - conectado a um motor que o imprime movimento– permite o passo de luzes rasantes emitidas desde um dos lados da estrutura, gerando sombras projetadas e reflexos que se alteram. Esta variação permanente lhe proporciona a instabilidade que Elena Oliveras há sinalado como a condição que outorga coerência a toda a produção plástica de Le Parc, ainda que algumas vezes se obtenham através do deslocamento do espectador e outras através do movimento virtual ou real presente no programa da obra (4).
Em relação a este tipo de proposta, é interessante sinalar que o MNBA também possui Serie luminosa (inv. 7283), doada pela Associação Amigos do MNBA. Trata-se de uma obra que atua a partir do mesmo principio que Inestabilidad. Proposición arquitectural, mas que, neste caso, foi concebida como uma instalação realizada para um lugar específico, por quanto que foi exibida em 1965 nos nichos da fachada do Museu, situada sobre a avenida del Libertador.Cristina Rossi

Nota de rodapé

1— Mais tarde, se separaram do grupo Demarco, García Miranda, Molnar, Servanes e Moyano.
2— Cf. Frank Popper, “Julio Le Parc” em: Luz, espacio, movimiento. Obras de Julio Le Parc, cat. exp. México DF, Instituto Nacional de Belas Artes, Galerias do Palácio de Belas Artes, 1968.
3— Popper adverte que, introduzidas em 1962, as experiências de luz rasante foram postas em valor na exposição Kunst-Licht-Kunst realizada em Eindhoven, Holanda, em setembro de 1966.
4— Cf. Elena Oliveras de Bértola, El arte cinético. El movimiento y la transformación: análisis perceptivo y funcional. Buenos Aires, Nueva Visión, 1973, p. 202.