Sobre a Obra

Um astrônomo (Un astrónomo)

  • Artista: Ribera, José de
    Nacionalidade Italiana
    (España, Játiva,1590 – Italia, Nápoles, 1652)
  • Origem: Shaw de Critto, Sara. 1978
  • Gênero: caravaggismo, retrato imaginário, Antiguedade
  • Suporte: Sobre tela
  • Dimensões: 126 x 101,5 cm. - Marco: 146,8 cm. x 121,5 cm.
  • Localização: Salão 5 - Manierismo y Barroco
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Um astrônomo (Un astrónomo) Ampliar
Inventário 8649

Comentário sobre Um astrônomo (Un astrónomo)

​ Alejandro Shaw, avô da doadora, adquiriu o quadro como obra de Ribera. Em dezembro de 1973, a tela foi assignada a Giordano por um perito argentino. Em 1989, a partir um exame de catálogo geral da obra de Ribera, preparado por Nicola Spinosa em 1978, os investigadores do Museu devolveram a atribuição ao Españoleto. Em 2004, em ocasião de uma mostra sobre Luca Giordano, o mesmo Spinosa apresentou uma pintura de menores dimensões, de 98 x 81 cm, que é, claramente, uma derivação do quadro de Buenos Aires, a considerou obra do pintor napolitano e identificou ao personagem representado com uma imagem do astrónomo antigo Ptolomeo. Existem, contudo, argumentos estilísticos e históricos para insistir na abstração de nosso quadro a José de Ribera, já sustentada em 1989.
A firmeza do desenho e a nitidez do traço que se advertem nos rasgos faciais e nos plugares com unhas longas e sujas do retratado remitem mais bem ao artista espanhol que ao Fa presto. A postura do sábio mendigo, de costas ao contemplador, mas com sua cabeça girada para observa-lo enquanto sustentam no alto, com ambas as mãos, os fólios desenhados, recorda a da Filosofia em frente ao espelho, talvez um Sócrates, da antiga coleção dos condes Matarazzo em Nápoles. A serie de pensadores antigos nessa pinacoteca haveria sido copiada de uma equivalente, autografa de Ribera, realizada especialmente para o duque de Alcalá, culto vice-rei de Nápoles, entre 1630 e 1632. Aquele corpus original viajou a Espanha e ali se lhe perdeu o rastro, ainda que é possível que uma parte dele fosse o conjunto visto e descrito por Antonio Ponz e por Ceán Bermúdez em El Escorial: “[...] Euclides, Arquimedes, um cego tocando a cabeça de uma estatua, Hisopo [Esopo] e Crisipo considerando a natureza do fogo”. O Arquimedes é o quadro homónimo hoje no Prado, o “cego” é El Tacto, também no Prado, e o Euclides talvez seja a peça adquirida pela Museu Getty em 2001. Os dedos plugares da figura de nossa tela são quase idênticos ao da mão esquerda que aperta um folio no livro exibido por esse Euclides.
Em quanto a identificação do retrato imaginário em nosso quadro, os desenhos esboçados sobre a folha de papel que exibe o personagem nos dão uma pista. Na parte inferior do folio se vê um círculo do que partem três triângulos alargados, como se trata-se das projeções de sombras possíveis para três focos diferentes que iluminam um corpo esférico. No meio da folha, um círculo mias grande, imagem de um corpo redondo, projeta dois cones de sombra bem próximas entre si. Na zona oposta do círculo, há uma figura estranha, um arco do qual saem raios e uns traços irregulares na área assim delimitada dentro do círculo grande. O esquema pode ser interpretado como a explicação gráfica do método para medir a distancia entre a Terra e a Lua, que Ptolomeu expõem no libro V do Almagesto e que, pela via de sue antecessor Hiparco, se remonta até Aristarco, autor do tratado Dos tamanhos e distâncias do Sol e da Lua. O procedimento consistia em aproveitar um eclipse de Lua para medir a largura da sombra da Terra a distancia de seu satélite; essa magnitude permitia calcular la paralaxe da Lua e deduzir a partir disso sua distância da Terra. Em nosso desenho, se veria a Terra que projeta dois cones correspondentes aos dois momentos em que a Lua entra e sai da zona de sombra da Terra, colocada em um mesmo plano entre a Lua e o Sol, aludido no pequeno arco radiante nas antípodas das sombras. Nosso Astrónomo poderia ser Ptolomeu, Hiparco ou Aristarco. Dado que Hiparco e Ptolomeu, teorizadores do sistema geocêntrico, foram homens respeitados pelos poderosos de seu tempo, enquanto que Aristarco, o primeiro em formular a hipótese heliocêntrica, deveu enfrentar fortes persecuções depois da acusação de impiedade que lhe lançou o estoico Cleantes, parece possível pensar que o quadro do Museu se refere ao Aristarco, jogado à pobreza, sábio inspirado ou louco marginal com titulo de incompreendido.
Um belo trabalho de Charles Salas em torno ao Euclides do Museu Getty trouxe à coleção o prazer com que José de Ribera soube entregar-se a estes tipos de jogos iconográficos. O retrato imaginário de Aristarco teve então um significado duplamente revulsivo. Por um lado, haveria estado inscrito na corrente intelectual do período barroco que reivindicava aos pensadores que Rodolfo Mondolfo chamou “proletários” da Antiguidade, desde Demócrito e Arquimedes até Diógenes, uma linha consagrada a expressar o inconformismo da época, o dissentimento para com os dogmas ou contra a autoridade, o anelo de liberdade do pensamento. Em segundo lugar, haveria sinalado em relação ao heliocentrismo e ao livro de Galileo sobre os máximos sistemas do mundo, publicado precisamente em 1632. Talvez os traços na área delimitada pelo círculo grande e o arco radiante do desenho de nosso quadro representam as manchas solares descobertas pelo próprio Galileu em 1612. É possível também que o cultíssimo duque de Alcalá fosse partidário do copernicaníssimo. Não nos esqueçamos da assombrosa prosápia desse bisneto de Hernán Cortés e descendente direto de Perafán de Ribera, primeiro duque de Alcalá, morto em 1571 quando era vice-rei de Nápoles, quem se havia negado com êxito a implantar o tribunal da Inquisição nos territórios italianos sob seu mando apesar das ordens expressas de Felipe II (1).José Emilio Burucúa

Nota de rodapé

1— Obras aludidas no texto: Juan Agustín Ceán Bermúdez. Dicionário histórico dos mais ilustres professores das Belas Artes em Espanha. Madrid, 1800, t. 4; René Pintard, Le libertinage érudit dans la première moitié du XVIIe siècle. Paris, Boinvin, 1943; Rodolfo Mondolfo, Nas origens da filosofia da cultura. Buenos Aires, Hachette, 1960; Nicola Spinosa, L’opera completa di Ribera, prólogo de Alfonso E. Pérez Sánchez. Milano, Rizzoli, 1978; Alfonso E. Pérez Sánchez e Nicola Spinosa, Ribera 1591-1652. Madrid, Museu do Prado, 1992; Nicola Spinosa e Alfonso E. Pérez Sánchez, Luca Giordano. A imagem como ilusão. Napoli, Electa, 2004; Charles G. Salas, “Elements of Ribera”, Getty Research Journal, Los Angeles, nº 1, 2009, p. 17-26.