Sobre a Obra

Os amordaçamentos (Los amordazamientos)

  • Artista: Heredia, Alberto
    Nacionalidade Argentina
    (Argentina, Buenos Aires, 1924 – Argentina, Buenos Aires, 2000)
  • Data: 1972/1974
  • Origem: Fundación Antorchas. 1990
  • Gênero: matérico, político, objeto
  • Dimensões: 47 x 14 cm. Base: largura de 16 cm. prof. 18,5 cm
  • Localização: Salão 39 - Sala temporaria
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Os amordaçamentos (Los amordazamientos) Ampliar
Inventário 9340

Comentário sobre Os amordaçamentos (Los amordazamientos)

​Longe dos ideais da beleza e estilo que traçaram a arte até a entrada do século XX, e insertado nas tendências que procuraram abrir os limites da pratica artística a partir do pós-guerra, desde 1962 Alberto Heredia trabalhou suas obras com materiais descartáveis, uma atitude que se acentuou a partir da década seguinte (1).
Durante o transcurso de 1974 apresentou a serie dos Amordazamientos simultaneamente em varias exposições. Mais de dez peças nas que o artista havia trabalhado desde 1972. Tratava-se de objetos ensamblados compostos por próteses dentais amordaçadas por telas coladas e montadas em suportes de madeira reciclada que se mostravam como alegorias da censura, naquele então, cada vez mais presente na Argentina. A ideia do corpo fragmentado e desmembrado, inclusive ao grado de alcançar sua mínima possibilidade de expressão, revelava a estas bocas como representações metonímicas do corpo e sua impossibilidade de dizer. Partindo desta perspectiva, o fragmento isolado se tornava decisivo e potenciava toda possibilidade expressiva através de detalhe.
Esta serie guarda estreita relação com outras que o artista realizou em paralelo: os Embalajes, os Engendros, as Lenguas e os Sexos (2). Em todas elas, o persistente uso de matérias descartáveis, “objetos inúteis” descartados pela sociedade de consumo, o serviram como recurso para sentar sua posição ética frente às condutas do homem contemporâneo. No caso dos Amordazamientos, o conceito de descartável se encontra estreitamente vinculado com o de violência ao mostrar o modo em que os corpos fragmentados podem ser vistos como rastros ou pistas da destruição. O constante uso de vendas e gesso também tinha uma forte impronta biográfica já que em 1963 Heredia havia sofrido um acidente ao cair de um cavalo, motivo que o obrigou, durante dois anos, a passar longos períodos completamente engessados.
Parte de suas preocupações naquela época se sintetiza em uma exposição que incluía uma seleção destas series mostrada em uma grande ambientação que denominou De las lenguas… y otras cosas más (Galeria Carmen Waugh, 1974), realizada em homenagem ao primeiro aniversario do falecimento do crítico e poeta argentino Aldo Pellegrini. Lá, as obras se montaram sobre uma mesa de cavaletes coberta de grama natural que, em um gesto performático, era regado periodicamente pelo mesmo Heredia (3). Tratou-se de uma verdadeira montagem que ironizava agudamente sobre o poder, o sexo e a religião (4). Neste sentido deve entender-se a música coral de fundo que acompanhava a mostra e que compreendia uma seleção de cantos gregorianos e um extrato de Carmina Burana de Carl Orff. Em dezembro desse mesmo ano, ameaçado de morte pela Triple A - entre outros motivos por “ativista comunista da elite artística”– Refugiou-se em Uruguai durante dois meses. Este momento também marcou um ponto de inflexão em sua carreira. De regresso a Buenos Aires, no que se pode considerar uma etapa de balance, Heredia se concentrou a revisar sua produção desde 1960, empreendendo a fundição em bronze de vários daqueles trabalhos (5).Mariana Marchesi

Nota de rodapé

1— Cartões, madeiras, envases plásticos, gesso, vendas, dentaduras e telas são alguns elementos que conformam sua obra.
2— Com exceção das Embalagens - realizados desde 1967 e até 1973– todas as series foram realizadas entre 1972 e 1974.
3— Laura Buccellato, “Alberto Heredia, el amigo artista” em: Alberto Heredia. Retrospectiva, cat. exp. Buenos Aires, Museu de Arte Moderna, 1998, p. 7.
4— Na mostra também se apresentou a serie das Crucificações.
5— Cf. Hugo Monzón, “Creaciones de un trágico con un muy oscuro sentido del humor”, La Opinión, Buenos Aires, 30 de novembro de 1976.

Bibliografia

1974. MONZÓN, Hugo, “Provocativa muestra escultórica de Heredia en Carmen Waugh”, La Opinión, Buenos Aires, 13 de abril.
1979. SANTANA, Raúl, “Alberto Heredia” em: Gabriel Levinas (ed.), Arte argentino contemporáneo. Madrid, Ameris, p. 144. — LÓPEZ ANAYA, Jorge, Heredia. Escultores argentinos del siglo XX. Buenos Aires, CEAL, nº 13, p. 4, reprod. p. 5.
1998. RABOSSI, Cecilia e Clelia Taricco, “Alberto Heredia. Vida y obra” em: Alberto Heredia. Retrospectiva, cat. exp. Buenos Aires, Museu de Arte Moderna, 1998, p. 107-108.
2005. LÓPEZ ANAYA, Jorge, Arte argentino. Cuatro siglos de historia (1600-2000). Buenos Aires, Emecé, reprod. color p. 405.
2009. MARCHESI, Mariana, “Cuerpos des-hechos. Destrucción y reconstrucción del cuerpo en la plástica argentina de los 70” em: AA.VV., XXX Coloquio Internacional de Historia del Arte. Estéticas del des(h)echo. México DF, Instituto de Investigações Estéticas, UNAM.